Uma menina me ensinou, quase tudo que eu sei. Era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei. Ela fazia muitos planos, eu só queria estar ali sempre ao lado dela… Eu não tinha aonde ir. Mas egoísta que eu sou, me esqueci de ajudar a ela como ela me ajudou, e não quis me separar. Ela também estava perdida, e por isso se agarrava a mim também. E eu me agarrava a ela porque eu não tinha mais ninguém. E eu dizia: “Ainda é cedo.” Sei que ela terminou o que eu não comecei. E o que ela descobriu, eu aprendi também, eu sei. Ela falou: “Você tem medo.” Aí eu disse: “Quem tem medo é você.” Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém. Ela me disse: “Eu não sei mais o que eu sinto por você. Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.” E eu dizia: “Ainda é cedo."
Quando eu ainda estava moca algum pressentimento me trazia volta e meia por aqui, a espera do garoto que naquele tempo andava longe, muito longe de existir. Tantos tristes fados eu compus, quanto choro em vão, bolero blues. Eis que do nada ele aparece, já tão desejado que não cabe em si, neste crucial momento, se ele olhar para trás é bem capaz de num lamento acudir ao meu olhar mendigo. Mas aquele ingrato corre e quando já não mais garoto der a meia-volta, claro que não vou estar mais nem aí.
Fechou o tempo, o salão fechou, mas eu entro mesmo assim. Eu sei que fui um impostor, porém me deixe ao menos ser pela última vez o seu compositor. Quem vibrou nas minhas mãos, não vai me largar assim. Acenda o refletor, apure o tamborim, aqui é o meu lugar, eu vim.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram.