Fechou o tempo, o salão fechou, mas eu entro mesmo assim. Eu sei que fui um impostor, porém me deixe ao menos ser pela última vez o seu compositor. Quem vibrou nas minhas mãos, não vai me largar assim. Acenda o refletor, apure o tamborim, aqui é o meu lugar, eu vim.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Mas de tudo, terrível, fica um pouco.

De tudo ficou um pouco 
Do meu medo. Do teu asco. 
Dos gritos gagos. Da rosa 
ficou um pouco 

Ficou um pouco de luz 
captada no chapéu. 
Nos olhos do rufião 
de ternura ficou um pouco 
(muito pouco). 

Pouco ficou deste pó 
de que teu branco sapato 
se cobriu. Ficaram poucas 
roupas, poucos véus rotos 
pouco, pouco, muito pouco. 

(...)

Se de tudo fica um pouco, 
mas por que não ficaria 
um pouco de mim? no trem 
que leva ao norte, no barco, 
nos anúncios de jornal, 
um pouco de mim em Londres, 
um pouco de mim algures? 
na consoante? 
no poço? 

Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram.