Eu esta triste, mais que isso, eu estava tristíssima. Estou sem estudar e isso me deixa com a sensação de que perdi o rumo da minha vida, ninguém de importante aparece para me fazer feliz um pouco, perdi muitas pessoas este ano que se passou, pessoas que eu quase cheguei a me importar. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade de não ter nenhum compromisso, falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Nada te faz querer ficar, nada te faz querer ir embora. Mas, alguma coisa me fazia falta, alguma coisa não estava boa e precisava recupera-la. Não sabia o que era ou sabia e achava um absurdo admitir. Sabia só que doía, doía. Sem remédio. Rezei, pensei em acender vela, pensei em coisas do passado, fantasias, momentos, memórias. Mas existia alguma coisa ausente do passado que me atormentava, como se eu estivesse perdia de amor e de loucura. Tentei relaxar mentalizando a ideia de que algo sempre nos falta, pode ser a religião, um amor, uma pessoa, uma música, dinheiro, esperança, paz. Sentir falta faz parte, não se pode ter tudo. Entretanto, atormenta. Me perguntaram o que tinha me acontecido, como se eu tivesse sido roubada. "O que foi que aconteceu com você? Cadê todo aquele charme? A autosuficiencia? A hiperbole? O que fizeram com você?!" Não me vinha nada na cabeça, nenhuma justificativa, era como se quando ele foi embora, além de levar as minhas palavras, as minhas risadas, o meu assunto. Era como se ele tivesse levado com ele a minha alegria. Como se ele a tivesse roubado. De todas as faltas, a dele é que mais faz silêncio em mim, a ausencia dele é o que me doi e esta dor, que me dá o movimento. Este amor, é o que tem me sugado toda e é a unica dor que eu não admito doer.
Quando eu ainda estava moca algum pressentimento me trazia volta e meia por aqui, a espera do garoto que naquele tempo andava longe, muito longe de existir. Tantos tristes fados eu compus, quanto choro em vão, bolero blues. Eis que do nada ele aparece, já tão desejado que não cabe em si, neste crucial momento, se ele olhar para trás é bem capaz de num lamento acudir ao meu olhar mendigo. Mas aquele ingrato corre e quando já não mais garoto der a meia-volta, claro que não vou estar mais nem aí.
Fechou o tempo, o salão fechou, mas eu entro mesmo assim. Eu sei que fui um impostor, porém me deixe ao menos ser pela última vez o seu compositor. Quem vibrou nas minhas mãos, não vai me largar assim. Acenda o refletor, apure o tamborim, aqui é o meu lugar, eu vim.